Coluna Alta Roda: Reflexão sobre o futuro

Além de recordes atrás de recordes da sua indústria automobilística, o Brasil deve comemorar a confirmação como quarto maior mercado do mundo, em 2010. Números definitivos de outros países ainda estão por consolidar, mas as 3,52 milhões de unidades (automóveis e comerciais leves e pesados) vendidas no ano passado são uma inequívoca demonstração de grande vitalidade. O crescimento de 12% sobre 2009 superou as expectativas mais otimistas, em parte por uma distorção ocorrida em dezembro último, o melhor mês absoluto das estatísticas do setor. Já se sabe que algo entre 30.000 e 40.000 unidades, dependendo da fonte de informação, foram emplacadas sem chegar ao comprador definitivo. Trata-se de uma apelação de marketing, quando uma ou mais marcas querem atingir metas de participação, e “solicitam” que concessionárias façam vendas para pessoas ou empresas específicas de forma provisória. Essa prática – apelidada de rapel – acontece também em mercados externos e no Brasil foi escancarada em 2004, quando a GM liderou o mercado de forma artificial. As fábricas nunca confirmam esse truque, porém não dá para escondê-lo. Basta conferir no final deste mês quais as marcas com queda de participação muito superior às demais – historicamente janeiro é de 25% a 30% mais fraco que dezembro pela sazonalidade das férias no país. Para o consumidor até há vantagens em comprar um desses carros agora. Concessionárias e fábricas é que perdem rentabilidade. Existem outras formas de “comprar” mercado, vendendo com enormes descontos para frotitas e locadoras, por exemplo. Essa, inclusive, foi uma das causas históricas da ruína das Três Grandes americanas em seu próprio mercado. A produção – inclui exportações de veículos montados e desmontados – também impressionou com os 14% de aumento sobre 2009. Nesse caso o Brasil deixa de aparecer tão bem na foto, pois apenas deve se estabilizar como sexto produtor mundial. Em 2011, a Anfavea prevê crescimento das vendas em 5% sobre 2010, para quase 3,7 milhões de unidades. A produção, no entanto, vai patinar, subindo apenas 1%. Reflete a combinação de dificuldades conhecidas de exportar e avanço das importações (em 2010, 19% de participação; previsão de 22% este ano). Assim, novos empregos deixam de ser criados aqui. Trinta marcas sem produção brasileira e afiliadas à Abeiva comemoram 144% de crescimento em 2010 e projetam mais 57% em 2011, para 165.000 unidades, o que superaria o recorde de 1995. Esse grupo representa menos de 4% do mercado total. Associados da Anfavea respondem por 60% de tudo o que se importou, porém a maior parte veio da Argentina (com grande conteúdo brasileiro) e do México, isenta do imposto de importação (I.I.) de 35%. Há sempre polêmica sobre esse porcentual elevado, o máximo permitido pela Organização Mundial do Comércio. A valorização do real suprime, hoje, boa parte da proteção tarifária. Vale dizer que, isoladamente, o I.I. representa em média 12% no preço final de um automóvel importado, encarecendo-o em 27% e não 35%. Em 2010, o Brasil importou 30% mais do que exportou de veículos montados. É preciso refletir mais sobre a competitividade dos carros nacionais.
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Hyundai i30 - Exemplo de importado que superou concorrentes nacionais RODA VIVA PARA José Luiz Gandini, presidente da Abeiva, apenas uma parte dos compradores de modelos estrangeiros sabe que não são produzidos no Brasil, mas desconhecem a origem exata: “Carros chegam da Argentina, México, Coreia do Sul ou Japão”, afirmou. E adiantou que a previsão de vendas de importados, em 2011, está calibrada pela cotação média do dólar a R$ 1,90. MARCAS tradicionais continuaram a perder – aos poucos, é verdade – participação no mercado brasileiro, em 2010. O avanço ocorreu por parte das francesas e japonesas que produzem aqui e também das sul-coreanas. Ford e GM ainda conseguiram acompanhar o crescimento de 12% do ano passado, mas Fiat só cresceu 3,2% e VW, apenas 1,9%.
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APÓS rodar 1.200 quilômetros por estradas e cidades da Flórida, EUA, deu para perceber porque o Porsche Panamera alcançou sucesso maior que o esperado tanto no mundo, como no Brasil (aqui, em termos relativos). Na versão 4S (tração integral), o motor de 4,8 l e 400 cv quase não toma conhecimento dos 1.860 kg de massa em ordem de marcha. IMPRESSIONAM também no Panamera: precisão da direção, pequeno diâmetro de giro, potência dos freios, excepcional posição de dirigir e funcionalidade do console, além do ótimo espaço para dois passageiros atrás (com mais de 1,8 m de altura). Pontos fracos são a visibilidade traseira e o porta-malas (445 l), que poderia ser maior. Estilo discutível, mas ao vivo é palatável. CORREÇÃO: primeiro automóvel com câmbio automático, um Oldsmobile, começou a ser vendido em 1939 e não 1948, por erro de digitação na coluna da semana passada. A GM batizou a transmissão de Hydramatic e aqui o termo hidramático, por décadas, se tornou sinônimo (incorretamente) de câmbio automático.
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Sobre: Fernando Calmon (fernando@calmon.jor.br) é jornalista especializado desde 1967, engenheiro, palestrante e consultor em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. Sua coluna Alta Roda começou em 1999. É publicada no CARPLACE e em uma rede nacional de 70 jornais, sites e revistas. É, ainda, correspondente para a América do Sul do site just-auto (Inglaterra).

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Foto de: Fábio Trindade