Opinião: a moto certa na hora certa pode evitar acidentes

Outro dia vi numa revista especializada um leitor perguntando o que achavam de ele comprar, como primeira moto, uma Honda CB 1000R. Oi? Até reli a pergunta para ver se eu estava entendendo corretamente o que o cara queria. Então você sai de uma moto-escola mais do precária (como vou falar mais adiante) e monta no rabo de um foguete com 125 cv? Lamento, amigo, mas a chance de isso dar muito errado é enorme. Minha vida motorizada começou sobre quatro rodas (saí correndo para a auto-escola no dia do meu aniversário de 18 anos), mas as motos sempre estiveram presentes no meu cotidiano desde que, ainda moleque, meu pai me levava para o colégio na garupa de uma NX 150 para deixar o carro com a minha mãe. Era normal então que, mais dia menos dia, chegasse minha vez de colocar a letrinha A (de habilitação para motos) na minha CNH. Eu tinha essa vontade desde uns 19 anos, mas todos os mais chegados (menos meus pais, por incrível que pareça!) me desencorajavam porque, diziam, "era muito perigoso". Isso até que, uns três anos depois, a vontade superou a insegurança. Fui trabalhar numa editora que tinha uma revista de motos (além da de carros que eu trabalhava) e comecei a notar o intenso brilho no meu olhar para as máquinas de duas rodas - o mesmo que eu ficava quando chegava um carro novo na redação. Para não chegar totalmente "cru" na moto-escola, pedi para o meu pai me ensinar o básico da pilotagem num sítio, onde tomei minha primeira "vaca" (sem maiores consequências), e então fui para as aulas práticas.
Opinião: a moto certa na hora certa pode evitar acidentes
No primeiro dia você fica só aprendendo como mexer no câmbio, a embreagem e os freios, com a moto no cavalete. Depois, nas aulas seguintes, vamos para um circuitinho onde você fica o tempo todo em primeira marcha, faz um "8" e depois têm de passar sobre uma linha reta sem balançar a moto. "Legal, e quando vou apender a pilotar de verdade, trocar de marcha, frear corretamente?", perguntei para o instrutor. "Na rua, com a sua moto", ele me disse, numa sinceridade ímpar. Ahhhh, tá... O negócio ali é só passar na prova. Bom, a prova prática é simplesmente fazer esse mesmo circuitinho sem deixar a moto morrer ou colocar o pé no chão. Daí, depois de umas três semanas andando na CG 125 da moto-escola (em primeira marcha!), você pega sua CNH categoria A e pode comprar qualquer moto: uma scooterzinha que não passa dos 80 km/h ou uma superesportiva que vai a 300 km/h em questão de segundos, tanto faz! Sei que o mesmo vale para os carros, mas na moto o buraco é (bem) mais embaixo.
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Não estou aqui me achando exemplo para ninguém, mas optei pelo caminho que considero o mais sensato (e seguro). Minha primeira moto foi uma scooter 115 com câmbio automático CVT. Fraquinha, fazia eu andar devagar e evitar grandes avenidas. E o mais importante: leve, baixinha e muito fácil de pilotar (é só acelerar e frear, tudo na mão), ela me deixava o máximo concentrado nos perigos do trânsito, como fechadas de veículos maiores, buracos, detritos no solo, cruzamentos, pedestres...
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E assim se passaram oito anos sem um "chão" sequer. Nesse período troquei a scooter por outra igual, do modelo mais novo, e depois por uma maior, mais pesada e com motor mais forte. Fui ganhando experiência nas motos de amigos e depois comecei a pegar as de teste (começando pelas menores, de 150 a 300 cilindradas), até que achei que estava pronto para pular para algo maior - veja como é a mudança de uma 300 para uma 650. Mas repito: nisso foram anos "pegando manha" de trânsito com a valente scooterzinha. Hoje tenho uma moto grande e com motor mais forte para passeios de fim-de-semana na estrada, mas ainda não dispenso a praticidade (e facilidade) de um scooter para uso cotidiano.
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Hoje, quando falam que sou "maluco" por andar de moto em São Paulo, eu respondo que talvez eu seja um pouco mesmo, apesar de me considerar prudente. Mas nunca fui realmente louco de começar com uma CB 1000R!

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Foto de: Daniel Messeder