Teste CARPLACE: sem turbo, Fiesta Sport deixa para divertir nas curvas

Teste CARPLACE: sem turbo, Fiesta Sport deixa para divertir nas curvas
Quando eu era moleque, nos final dos anos 1980, babava num Gol GTi que um cara do condomínio tinha acabado de comprar. Além do status de carregar um motorzão "2.000" injetado, o hatch pesava somente 997 kg. Ou seja, seus 120 cv e 18,3 kgfm de torque eram mais que suficientes para despachar o restante dos carros nacionais nas acelerações e retomadas. Um esportivo de verdade! Cerca de 20 anos depois, porém, fica complicado chamar de esportivo um hatch de 128 cv e 16 kgfm, por mais que seu motor 1.6 16 válvulas tenha duplo comando variável e ele venha vestido com rodas aro 16" e pneus de perfil baixo, sem contar a carroceria incrementada com aerofólio e saias laterais, frontais e traseiras. O novo Fiesta Sport é isso, um Fiesta SE com decoração esportiva feita em conjunto com a fabricante de acessórios Keko, que usa um galpão de 800 m2 na própria fábrica da Ford em São Bernardo do Campo (SP) para montar os kits assim que os carros deixam a linha de produção.
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A Ford bem que tentou trazer a endiabrada versão ST do Fiesta ao Brasil, fabricada no México com motor 1.6 Ecoboost (turbo e injeção direta) de 200 cv e câmbio manual de seis marchas, mas o dólar a mais de R$ 3 azedou os planos - ainda mais em se tratando de um segmento de baixo volume. Restou então aproveitar o design originalmente esportivo do Fiesta e criar o tal Sport, que mantém no documento a sigla SE para não custar mais na hora de fazer o seguro. Pimentinha na mecânica? Nenhuma. Pode ser um pouco frustante num primeiro momento, mas o que a Ford fez foi seguir uma receita já bastante difundida em nosso mercado - que o digam os Fiat Sporting e os recém-lançados VW Fox Pepper e Hyundai HB20 Spicy. Mecânica de versão comum em pele esportiva, busca somente o cara que prioriza o design.
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Olhando os principais rivais, até que o Fiesta fica bem na foto. Com desenho agressivo, o hatch da Ford recebe de bom grado os acessórios visuais, que ficam melhores quando vêm da própria fábrica. Nas ruas o Sport foi atração certa por onde passava, especialmente pelas rodas e grade pintadas de preto, que ganham mais destaque quando a carroceria é vermelha como a do carro testado - há também opção de cor branca ou preta metálica. As rodas na verdade são exatamente as mesmas da versão Titanium, só que pintadas de preto, bem como os retrovisores. Atrás, o aerofólio também combina com as linhas da carroceria, fazendo do Sport um Fiesta de bom gosto - longe de alguns "xuning" que vemos por aí. Completam o pacote os faróis com máscara escurecida e a soleira nas portas dianteiras com o logotipo Sport. E fica nisso.
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Bem trabalhado por fora, o Fiesta Sport decepciona pro dento. Não que o painel original não seja legal, mas nisso os Sporting da Fiat são bem mais descolados. Falta uma iluminação vermelha nos instrumentos, uma manopla específica, uma forração de couro no volante, uma pedaleira esportiva... Até mesmo os bancos são iguais aos da versão SE, com um tecido simples. Se tiver uma graninha sobrando, vale investir na forração de couro com costura vermelha - acessório de concessionária com preço sugerido de R$ 1.750. Já que não temos um EcoBoost pulsando sob o capô, o jeito é se divertir nas curvas. Sim, porque na reta os rivais andam junto ou até mais rápido que o Ford, mas o Fiesta compensa com a melhor dinâmica do segmento: suspensão finamente calibrada entre conforto e estabilidade, direção elétrica rápida e comunicativa, freios eficientes, pedais de boa modulação e ainda um câmbio de engates precisos e com alavanca elevada, a menos de um palmo do volante - como nos carros de rali.
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Desliguei o controle de tração (o de estabilidade não pode ser desativado) e passei algumas horas na nossa já tradicional Estrada dos Romeiros, onde o Sport fez valer a boa fama do Fiesta nas curvas. Ele mostra uma tocada leve, bastante ágil, e aceita ser jogado de um lado para o outro com muita rapidez e pouca inclinação da carroceria. A direção afiada conversa bem com a dianteira precisa, tornando muito fácil a tarefa de apontar o carro onde se deseja. E o mais legal é que a traseira participa da brincadeira, já que o hatch escorrega nas quatro rodas quando passamos do limite da aderência. Mesmo os pneus Pirelli P7 Cinturato 195/50 R16 se revelaram adequados à proposta, sem chiarem muito nos abusos. Em suma, o Fiesta não espalha tanto a frente como seria esperado de um hatch tração dianteira, o que deixa a condução divertida. Lembra um pouco o Suzuki Swift Sport, que não anda muito na reta, mas carrega boa velocidade para as curvas. E a atuação do controle de estabilidade? Bom, ele pode até ser intrusivo para andar num autódromo, mas para o mundo real atua perfeitamente - sem afobação e de forma discreta.
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Mesmo exigindo dos freios no trajeto, o Sport não apresentou fadiga ou pedal baixo - apenas um leve cheiro de "estou sendo forçado". O motor não tem aquele torque dos downsizing turbinados para empurrar nas saídas de curva, mas em contrapartida mostra funcionamento suave mesmo acima dos 6 mil giros. E nem precisa reduzir marcha toda hora: elástico, o propulsor cresce de giro com facilidade. Estranhamos apenas a perda de 2 cv na potência máxima em relação ao Fiesta 1.6 2014, que tinha declarados 130 cv com etanol. Passado o trajeto de curvas, o Fiesta volta a ser um simples hatch 1.6 aspirado na estrada aberta. Viaja silencioso e macio a 120 km/h em quinta marcha (3.200 rpm), mas mal chega nos 180 km/h de máxima pelo velocímetro (teste em pista fechada). A aceleração de 0 a 100 km/h também não empolga, com 11,0 s - o próprio Fiesta SE Powershift de dupla embreagem fez a prova em 0,5 s a menos em nossas medições. Em resumo, o Sport é um carro estiloso e esperto para o dia-a-dia na cidade, que topa uma diversão na subida de serra no fim-de-semana. Mas está longe de ter desempenho esportivo.
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Tabelado a R$ 58.990, o novo Ford entra na seara de Punto Sporting (R$ 54.710) e Fox Pepper (R$ 53.110). O preço mais alto que os rivais pode ser justificado em parte pela boa oferta de equipamentos de série: o Sport vem com ar digital, sistema Sync de entretenimento com App link e chamada de emergência (liga para o Samu em caso de acidente), além do pacote de segurança com controle de estabilidade e assistente de partida em rampa. De todo modo, a fantasia sai cara: o Fiesta SE com os mesmos equipamentos (menos a estética) custa R$ 52.790. Infelizmente, ainda não foi dessa vez que o Punto T-Jet (R$ 67.010) ganhou um rival à altura de seu motor 1.4 turbo de 152 cv e 21,1 kgfm. Para fazer jus ao termo esportivo, o Fiesta precisava ao menos de um caracol e um ronquinho mais instigante. Ou seja, a gente queria mesmo era o ST... Texto e fotos: Daniel Messeder

Ficha técnica

Motor: dianteiro, transversal, quatro cilindros, 16 válvulas, 1.597 cm3, comando duplo variável, flex; Potência: 125/128 cv a 6.500 rpm; Torque: 15,4/16,0 kgfm a 5.000 rpm; Transmissão: câmbio manual de cinco marchas, tração dianteira; Direção: elétrica; Suspensão: independente McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira; Freios: discos na dianteira e tambores na traseira, com ABS; Peso: 1.126 kg; Rodas: liga-leve aro 16″ com pneus 195/50 R16; Capacidades: porta-malas 281 litros, tanque 51 litros; Dimensões:comprimento 3.969 mm, largura 1.787 mm, altura 1.464 mm, entreeixos 2.489 mm
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Aceleração 0 a 60 km/h: 4,8 s 0 a 80 km/h: 7,1 s 0 a 100 km/h: 11,0 s Retomada 40 a 100 km/h em 3a marcha: 11,3 s 80 a 120 km/h em 4a marcha: 12,5 s Frenagem 100 km/h a 0: 40,7 m 80 km/h a 0: 26,0 m 60 km/h a 0: 14,6 m Consumo Ciclo cidade: 7,8 km/l Ciclo estrada: 11,9 km/l

Galeria de fotos: Ford Fiesta Sport

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Foto de: Daniel Messeder