Teste Rápido: Nissan Kicks traz o apelo emocional que falta à marca

Teste Rápido: Nissan Kicks traz o apelo emocional que falta à marca

Ninguém se apaixona pelo Nissan Versa à primeira vista. O March também está longe de ser a opção mais passional do segmento. E mesmo o Sentra se defende mais pela razão do que pela emoção. Ao olhar o Kicks, porém, a coisa muda de figura - ele nem parece da mesma marca que até pouco tempo produzia o Livina. Com seu novo crossover, a Nissan tem enfim um carro que as pessoas desejarão comprar. Não, ele não abre mão do pragmatismo japonês, mas vem acompanhado de um belo design (tanto externo quanto interno) e de uma dirigibilidade interessante. Logo no lançamento, já levamos a novidade para a pista, além de rodar na estrada, na cidade e em alguns trechos de terra.

O que é?

A ideia do Kicks nasceu em 2011, tendo o modelo sido apresentado como primeiro conceito no Salão do Automóvel de 2012. Desde o início, o projeto previa um crossover compacto global feito a partir das exigências brasileiras, para depois ganhar o mundo. No Salão de 2014, o Kicks já aparecia quase no formato final e com o nome definitivo. Desenvolvido a partir da plataforma V do March e do Versa, a base do Kicks foi extensamente modificada, a ponto de o chefe de produto Sachiko Aoki garantir que se trata de uma nova plataforma, a V Extended. Segundo o engenheiro japonês, a estrutura do Kicks é muito mais rígida, com aços de alta resistência, além de as suspensões serem inteiramente novas. Em termos proporcionais, o Kicks vem ao mundo com medidas muito semelhantes às do principal rival, o Honda HR-V. São 4,29 metros de comprimento por 1,76 m de largura e 1,59 m de altura, com 2,61 m de distância entreeixos. O porta-malas, também parecido com o do concorrente, é de 432 litros. Como no March, a Nissan fez do Kicks um carro bastante leve, principalmente levando-se em conta seu porte: apenas 1.142 kg - menos que um Ford Fiesta Ecoboost! Outra premissa do projeto é que o crossover tivesse 20 cm de altura livre do solo, para rodar bem em pisos ruins e estradinhas vicinais. O motor é o conhecido 1.6 16V flex de March e Versa, com comando variável na admissão. Recebeu calibração e dutos de ar específicos para o Kicks, chegando a 114 cv de potência e 15,5 kgfm de torque - seja com etanol ou gasolina. De início, será oferecido somente o câmbio automático continuamente variável CVT Xtronic, com relações exclusivas para o modelo e a estreia do sistema de simulação de marchas em altas rotações, para tirar um pouco da monotonia deste tipo de transmissão. A suspensão é tradicional McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, sendo a versão SL (única disponível no lançamento) equipada com rodas aro 17" e pneus Continental ContipowerContact de medidas 205/55 R17.
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Visto ao vivo, o Kicks é curiosamente compacto. A grade em "V" e a coluna traseira em formato de "Z" dão personalidade ao crossover da Nissan, que ainda conta com o efeito de teto "flutuante" por conta das colunas na cor preta. Como opcional, o modelo pode receber o teto em cor diferente da carroceria - o carro avaliado por nós era cinza com a capota laranja. Além do desenho arrojado, o crossover foi trabalhado para ter baixa resistência ao ar, atingindo um Cx de 0,34.
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Por dentro o crossover chega com três opções de tons, variando de acordo com a cor externa: preto, macchiato (marrom) e sand (bege). Nesta versão SL, os bancos, laterais de porta e parte do painel são revestidos de couro, adicionando um toque suave à peça de plástico rígido. O acabamento em geral é bem feito, com plásticos de qualidade e sem rebarbas aparentes. O banco é bastante confortável, sendo macio e com bom apoio lateral, enquanto o espaço traseiro é muito bom para as pernas e cabeça, mas apenas razoável na largura. Ponto positivo é que a Nissan ouviu as reclamações sobre March/Versa e mudou a coluna de direção e os botões dos vidros elétricos. Agora o volante não despenca ao liberarmos a trava de ajuste e todas as janelas têm função "um toque", além dos botões serem iluminados. Já a chave presencial ganhou a função de subir/descer os vidros.
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Como esperado num crossover, a posição de dirigir é elevada mesmo com o banco na posição mais baixa, mas perfeitamente centrada e confortável. O volante é uma revolução entre os carros de passeio da Nissan, com formato esportivo e a base reta que lembram a peça do Audi TT. Outra coisa que remete aos Audi é o quadro de instrumentos com uma tela TFT, só que no Kicks o velocímetro permanece analógico. Na tela você pode variar entre o conta-giros, rádio, navegação, computador de bordo, histórico de consumo e ajuste de funções do carro.
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De série, o Kicks SL ainda vem com central multimídia (tela de 7" sensível ao toque) e um sistema de câmera 360 graus - "mimo" até então só visto em carros mais caros, como alguns SUVs da Land Rover. Trata-se de uma combinação de quatro câmeras (uma na dianteira, duas nos retrovisores e uma na traseira) para ajudar em manobras, inclusive com detecção de movimentos - caso alguma pessoa passe atrás do carro, por exemplo. Além das visões independentes, pode também mostrar todos os cantos de uma só vez, como se o carro fosse visto de cima.

Como anda?

Nosso test-drive começou na capital paulista e seguiu rumo a Porto Feliz, no interior do estado. Na volta, ainda demos uma esticada na pista de testes e voltamos pela Estrada dos Romeiros, famosa por suas curvas. No total, rodamos mais de 300 km em diversas condições neste primeiro teste.
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Logo de cara, percebemos que o Kicks não tem nada de March e Versa. Apesar de compartilhar o powertrain com hatch e sedã, o crossover anda de forma bem diferente. Primeiro, a suspensão tem maior curso. Segundo, a carroceria é mais bem isolada - só percebemos um ruído de vento incômodo na janela do motorista, mas que pareceu uma falha da unidade avaliada. Terceiro, o câmbio CVT tem relações um pouco mais curtas e simula trocas em altas rotações. Para completar, o Kicks ainda vem com controle de estabilidade e tração, além de uma função que usa o freio motor e a aplicação dos freios de forma individual para melhorar o comportamento em curvas.
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Na cidade, o Kicks roda suave e quieto, deslanchando com facilidade e sem preguiça mesmo em subidas. A suspensão é mais macia e silenciosa que a do March, transmitindo boa sensação de solidez nos buracos - só não é melhor por conta das rodas aro 17" com pneus de perfil baixo. Apesar disso, mantém o acerto mais "durinho" característico da Nissan, lembrando o HR-V neste ponto. A direção elétrica está muito bem calibrada, com leveza e rapidez nas manobras, e bom peso e comunicação em velocidades mais altas.
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Ágil no trânsito, o Kicks também vai bem na estrada, mas fica próximo do seu limite. Explico: o câmbio CVT tende sempre a jogar a rotação para cerca de 2 mil rpm em velocidades de cruzeiro. Acontece que o motor 1.6 não tem força para manter isso nos aclives a esta rotação, e então é preciso pisar um pouco mais quando pintar uma ladeira. Ultrapassagens? Não tenha dúvida, pé embaixo! O motor vai gritar (passa das 5 mil rpm), mas é normal, faz parte do CVT - e agora ele fica variando como se trocasse de marcha, como no Corolla e no próprio HR-V.
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Para quem duvidava do desempenho do Kicks com o motor 1.6, a resposta: não sobra, mas também não chega a faltar. Pelo fato de o crossover ser leve e a Nissan ter calibrado propulsor para entregar mais torque em baixos giros, ele até surpreendeu nas nossas medições. Acelerou de 0 a 100 km/h nos mesmos 11,6 segundos do Versa e retomou de 80 a 120 km/h em 9,1 s. Para efeito de comparação, o EcoSport Powershift 1.6 (130 cv) registrou 11,8 segundos e 8,9 s nas mesmas provas. A questão é que, contra o HR-V, o Kicks fica para trás: o Honda chegou aos 100 km/h em 10,5 s e retomou de 80 a 120 km/h em 7,3 s, fazendo valer seu motor 1.8 de 140 cv - também acoplado à uma caixa CVT.
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Sobre a adoção de um motor maior no futuro (1.8 ou 2.0), a Nissan diz que não, pois a pegada do carro é ser eficiente. E isso não dá para negar que ele seja. Abastecido com gasolina, o crossover registrou média de 16,2 km/l na estrada. Na cidade não foi possível medirmos, mas pelos números do Inmetro ele faz 11,4 km/l - valor bastante crível levando-se em conta o que vimos. Num trecho da Marginal Pinheiros na volta do teste, chegamos a passar dos 20 km/l pelo computador de bordo, andando a 70 km/h. Com etanol, as médias do Inmetro são de 8,1 e 9,6 km/l, respectivamente, na cidade e estrada. No geral, o Kicks recebeu nota A pelo programa de brasileiro de etiquetagem, conquistando também o selo do Conpet de eficiência.
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Desempenho OK, consumo notável. Mas o que mais gostamos do Kicks foi a dinâmica. Esqueça que ele é altinho, o crossover faz curvas como um hatch, e dos bons! Na serpente da Romeiros, abusei da velocidade nos contornos e cotovelos, e recebi muita confiança em troca. Chama atenção a baixíssima transferência de peso nas frenagens (mais uma vantagem de ser leve) e a pouca inclinação da carroceria, além do grip elevado dos pneus Continental. Resultado: mesmo forçando, quase não ouvi os pneus chiarem - e menos ainda percebi a atuação do ESP. Também não tenho o que reclamar dos freios, apesar dos tambores na traseira. Não mostraram tendência ao aquecimento no trecho de tocada forte e contiveram o crossover em 41,9 metros quando vindo a 100 km/h - marca melhor do que EcoSport e Renegade.

Quanto custa?

Conforme havíamos antecipado anteriormente, o Kicks chega apenas na versão de topo SL forrada de equipamentos. Entre os principais vale destacar os seis airbags, ar digital, multimídia de 7", câmera 360 graus, bancos de couro, controle de estabilidade e chave presencial com partida por botão, além do painel parcialmente digital. Sem dúvidas um pacote tentador, apesar de deixar de fora um simples retrovisor eletrocrômico... Só que o novo Nissan não é nada barato: R$ 89.990 - grana que, saindo do segmento SUV, compra um Cruze LT 1.4 Turbo.
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Quem quiser um Kicks mais em conta terá de esperar até o ano que vem. Está prevista para começar até março de 2017 a produção do crossover na fábrica de Resende (RJ), quando virão as versões SV e talvez S, além da opção de câmbio manual - trazendo o valor de entrada para algo em torno dos R$ 75 mil. Até lá, a marca acena com o custo de manutenção que ela garante ser o menor da categoria: R$ 2.994 nas revisões até 60 mil km. A garantia é de três anos.
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Após o primeiro teste do Kicks, não tenho medo de afirmar que se trata do carro mais atraente da marca nos últimos anos. E ele não virá como figurante: mesmo agora no começo da produção, no México, haverá capacidade para vender mais de 3 mil carros/mês, garantem executivos da empresa. Por R$ 10 mil a menos que o (ainda mais caro) HR-V EXL, é uma bela opção a ser considerada - e não somente pelo lado racional. Por Daniel Messeder, de Porto Feliz (SP) Fotos: Divulgação e autor

Ficha técnica – Nissan Kicks SL

Motor: dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 16 válvulas, 1.598 cm³, comando duplo varável na admissão, flex; Potência: 114 cv a 5.600 rpm; Torque: 15,5 kgfm a 4.000 rpm; Transmissão: automática tipo CVT com simulação de marcha; Direção: elétrica; Suspensão: independente McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira; Freios: discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS, EBD; Rodas: liga-leve aro 17, com pneus 205/55 R17; Peso: 1.142 kg; Capacidades: porta-malas 432 litros, tanque 41 litros; Dimensões: comprimento 4.295 mm, largura 1.760 mm, altura 1.590 mm, entre-eixos 2.610 mm Medições CARPLACE Aceleração 0 a 60 km/h: 5,2 s 0 a 80 km/h: 8,0 s 0 a 100 km/h: 11,6 s Retomada 40 a 100 km/h em D: 8,8 s 80 a 120 km/h em D: 9,1 s Frenagem 100 km/h a 0: 41,9 m 80 km/h a 0: 26,1 m 60 km/h a 0: 14,2 m Consumo Ciclo cidade: Não aferido Ciclo estrada: 16,2 km/l

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