Os desejos de um trânsito mais civilizado parecem tão fictícios quanto o de que Papai Noel nos entregue um mundo melhor. Mas há solução

Paz na terra aos homens de boa vontade. O preceito bíblico parece não ser legal com aqueles que o aplicam ao trânsito. Motoristas de boa vontade normalmente só passam raiva com gente que entra na via sem olhar, corta a frente, anda colado demais à traseira, fica empatando a esquerda, estaciona de qualquer jeito ou não usa a bendita (e esquecida) seta para indicar suas intenções. Não parece haver paz para quem só quer se deslocar numa boa por aí.

Pedimos por mais paciência no trânsito não tem muito tempo em nosso Facebook. Por coincidência, ouvi um dia desses na rádio Abílio Diniz comentar seu novo livro, no qual ele confessa que andava por aí sem dar seta “porque não tinha de pedir autorização a ninguém para fazer o que queria”. Ele foi corajoso em admitir, mas o fez para dizer justamente que não faz mais isso. Ainda bem.

Sempre dei às pessoas que agem assim o benefício da dúvida. Podia ser esquecimento. Falta de costume. Carta comprada. Mas saber que tem gente que pensa da mesma forma que Diniz pensava me incomoda. É um nível de arrogância e de soberba que ameaça a própria convivência social. E, se pensarmos bem, não deve ser tão extraordinária assim.

 

Nissan Juke estacionado no Maine

 

Se fosse, o que levaria um ser humano a estacionar deste jeito? Essa foto foi feita nos EUA por Matthew Mills em um estacionamento no Maine. A prova de que os homens de boa vontade estão de saco cheio é a cama de gato que armaram para o sujeito que se achou melhor do que todo mundo. Mas note que foi uma arapuca bem humorada, para constranger. Podiam ter furado os pneus do Juke. Podiam ter jogado panos com fluido de freio no teto do SUV. Mas só fizeram ele ficar com raiva. E talvez envergonhado pela situação ridícula de tirar os carrinhos do entorno de seu SUV compacto. Essa é a política do constrangimento. A mesma que levou o pessoal do canal Boom! a cobrir esse Fiat Palio de Post-its.

 

 

Foi com isso em mente que escrevi “O Colesterol do Trânsito”, que infelizmente teve um alcance muito menor do que eu gostaria. O que é triste é ser necessário um agente externo para que o motorista em questão se sinta remotamente constrangido. E nossa aposta é que estes caras não ficaram envergonhados, mas sim “bravinhos”. Devem ter se sentido injustiçados, agredidos. Se bobear, invocaram o preceito “não faça ao próximo o que não quer que façam com você”. Como se eles não tivessem pisado primeiro na bola.

Desejar por mais gentileza no trânsito acaba virando conto de Natal. Algo como desejar que Papai Noel interceda por nós e não dê presentes aos maus motoristas que povoam nossas ruas e estradas. Ou aquele tipo de hipocrisia tão típica de gente que adora ver corrupto ser preso, mas nem sequer admite as próprias corrupções. Já disseram por aí que uma sociedade virtuosa não tem representantes safados. Gonzaguinha tirou um tremendo sarro disso em 1973, com a música “Comportamento Geral”.

 

 

Tão antigo e tão atual…

O que aproveito para dizer neste Natal, com esta reflexão, é que não adianta pedirmos por paz no trânsito sem uma atitude ativa neste sentido. Que a gente não deixe de se incomodar com quem age mal, mas que também faça por merecer um ambiente mais saudável. Já que começamos falando de um preceito religioso, podemos usar outro, que convoca a uma reforma interior. “"Cuide da reforma pessoal e a reforma social cuidará de si mesma", dizia Ramana Maharshi. Tomara que o mesmo valha para o trânsito. E que possamos comemorar Natais mais gentis nele em um futuro não muito distante.

Foto: Matthew Mills

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