Ford Ka Trail e Honda WR-V seriam SUVs segundo o Inmetro. Fomos atrás da história e...

No lançamento do Honda WR-V, ouvimos que a imprensa deveria considerar o novo modelo como um SUV porque é assim que o Inmetro teria escolhido classificá-lo. Afinal de contas, ele atenderia aos critérios de ângulo de entrada e de saída, além do vão livre mínimo do solo estipulado. No lançamento do Ford Ka Trail, a moda pegou e a empresa pediu que ele também fosse considerado SUV em vez de "aventureiro". Mas será que a culpa era mesmo do Inmetro? Fomos atrás do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia para descobrir.

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Depois de quase duas semanas de pedidos de informação ao instituto, acabamos descobrindo, por conta própria, onde estavam as definições de classificação usadas por eles. Elas estão nos "Requisitos de Avaliação da Conformidade para Veículos Leves de Passageiros e Comerciais Leves" anexos à portaria 377 do Inmetro, de 29 de setembro de 2011. Mas as definições não são daquele ano e sim de 2013, quando saiu a portaria 522, que mudou a redação anterior para a que temos hoje.

 

Agora todo mundo é SUV. Culpa do Inmetro?

 

Assim que começamos a ler a tal portaria, alívio. No item 4.5.6, que trata da "Categoria de veículo fora-de-estrada compacto", as primeiras palavras são: "Veículo que possui tração nas quatro rodas...". Mas nunca dá para cantar vitória antes de ler as letras miúdas. Que não eram tão miúdas assim e diziam, no item 4.5.9, o da "Categoria de veículo utilitário esportivo compacto":

"Veículo para transporte de passageiros, com área inferior a 8,0 +/- 0,10 m2 , desprovidos de caçamba para transporte de cargas e, no mínimo, quatro das seguintes características calculadas para o veículo com a massa em ordem de marcha, em superfície plana, com as rodas dianteiras paralelas à linha de centro longitudinal do veículo e os pneus inflados com a pressão recomendada pelo fornecedor:

  • ângulo de ataque mínimo de 23º, com tolerância de -1º, que deve ser medido a partir do ponto tangencial anterior da área de contato do pneu até o ponto tangencial mais baixo da parte dianteira em balanço do veículo;
  • ângulo de saída mínimo de 20º, com tolerância de -1º, que deve ser medido a partir do ponto tangencial posterior da área de contato do pneu até o ponto tangencial mais baixo da parte traseira em balanço do veículo;
  • ângulo de transposição de rampa mínimo de 10º, com tolerância de -1º, que deve ser medido como o a média dos ângulos a partir do ponto tangencial mais baixo entre os eixos do veículo até os pontos tangenciais posterior da área de contato do pneu do eixo dianteiro e anterior da área de contato do pneu do eixo traseiro;
  • altura livre do solo, entre os eixos, mínimo de 200 mm, com tolerância de -20 mm; - altura livre do solo sob os eixos dianteiro e traseiro mínimo de 180 mm, com tolerância de -20 mm."

É com base neste texto que não só o Ford Ka Trail e o Honda WR-V podem ser considerados "utilitários esportivos", segundo o Inmetro, como também os Fiat Adventure (Weekend, Idea e Doblò) com exceção da Strada (que tem caçamba), Citroën Aircross, Renault Sandero Stepway e VW CrossFox. Os Chevrolet Activ (Onix e Spin) têm apenas 15 cm de vão livre. Ficam de fora da definição benéfica do Inmetro.

 

Agora todo mundo é SUV. Culpa do Inmetro?

 

Só para recapitularmos, versões de carros de passeio com suspensões mais altas e apetrechos estéticos rústicos criam o que o mercado convencionou chamar de aventureiros. Quando o modelo é diferente, com carroceria própria e suspensão mais alta, mas não tem tração nas quatro rodas, ele é chamado de crossover, ou uma mistura de segmentos diferentes: parece um SUV, mas não tem real aptidão para o fora-de-estrada.

 

Agora todo mundo é SUV. Culpa do Inmetro?

 

Só os que têm essa habilidade merecem o título de SUVs, ou de utilitários esportivos. Mas o Inmetro chamou todo mundo que atenda aos critérios acima deste modo. Em suma, nivelou por baixo. E as fabricantes, nada bobas, aproveitaram a deixa. Só levaram 4 anos para fazer isso, mas fizeram, como os novos modelos mostram bem.

 

Agora todo mundo é SUV. Culpa do Inmetro?

 

Com as classificações e os critérios escolhidos pelo Inmetro para defini-las nas mãos, só nos resta saber como e por que o instituto chegou a eles (e elas). Por que ele usa a presença ou não de 4x4 para diferenciar "fora-de-estrada" de "utilitário esportivo" se, para o mercado, ambos têm essa configuração? Por que não usa o termo crossover? Seria anglicismo demais? Será que considera "aventureiro" pejorativo? Não sabemos. Mas perguntamos.

Torça por respostas rápidas. Seria muito interessante ver o que o Inmetro tem a nos dizer sobre a mais nova polêmica do mercado automotivo. Uma em que o instituto entrou de gaiato, mas que ele, querendo ou não, acabou alimentando.

Fotos: divulgação

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